A criação da Amazon

19 de maio de 2016, por

Hoje pouco se questiona a capacidade da internet de fazer dinheiro. Cada vez mais, e mais rápido, ela é capaz de criar novos milionários quase que da noite para o dia. Mas nem sempre foi assim. Em 1994, quando Jeff Bezos fundou a Amazon, a internet ainda era um caminho pouco estudado e compreendido.

O modelo de vendas por catálogo

Bezos trouxe para o comércio eletrônico um modelo de negócios bastante antigo, iniciado em 1886, quando um homem chamado Richard Sears comprou um caixote de relógios enviado por engano a um comerciante local que não quis ficar com a mercadoria. Sears usou a ferrovia para vender seus relógios aos agentes ferroviários ao longo dela. Dez anos depois, a Sears, Roebuck & Co. (Sears, como ficaria conhecida) lançaria o “Wish Book”, catálogo semanal enviado por entrega postal com o tamanho parecido com o de um catálogo telefônico e com, aproximadamente, 200 mil itens e variações em oferta.

Anúncio da antiga Sears, Roebuck & Co.

Foi como evolução desse modelo de vendas por catálogo que começou, no início da década de 1990, a ascensão do comércio eletrônico. O que se fez foi aproveitar um método já utilizado, testado e aprovado, ampliando suas funcionalidades e necessidades com o uso da tecnologia. Pela internet era agora possível processar pedidos com muito mais agilidade e organização, aumentar consideravelmente a base de produtos, e reduzir drasticamente os custos – já que não mais seria necessário imprimir e postar os extensos e pesados catálogos.

Em 1994 Bezos foi incumbido de buscar novas oportunidades na internet pelo seu chefe, quando ainda trabalhava na empresa de fundos Hedge D. E. Shaw. Mais de dez anos depois, proferiu as seguintes palavras:

Fui à Direct Marketers Association e obtive a lista de tudo que era vendido à distância. Roupas destacava-se como a principal categoria. Alimentos finos era a número dois. Bem abaixo, no final da lista, apareciam livros, e essa categoria estava lá apenas por causa de coisas como o Book of the Month Club, pois realmente não havia catálogos de papel, assim dizendo, que vendessem livros (extraído do livro A Cauda Longa, de Chris Anderson).

O Mercado Editorial e a criação da Amazon

O crescimento do mercado editorial nos Estados unidos a partir da década de 1990 promoveu o desenvolvimento de cadeias de megastores, que ofereciam super-descontos e promoviam uma oferta imensamente superior às livrarias locais. Com isso, aumentou-se a disponibilidade de livros nas prateleiras, gerando uma abundância de escolhas para os compradores de livros. Com livros mais baratos e mais fartos, com a internet entrando no filão dos super-catálogos, e com a falta de catálogos voltados aos livros, Bezos não perdeu a oportunidade:

Ocorre que a seleção é fator muito importante da experiência de compra dos clientes na categoria livros. Também ocorre que não se pode ter um catálogo muito grande de livros no papel; é totalmente impraticável. A cada ano se publicam mais de cem mil livros, e mesmo uma superloja não pode manter todos esses livros em estoque. As maiores superlojas têm 175 mil títulos e só três são desse tamanho. E assim surgiu a ideia: que a Amazon seja o primeiro lugar onde se pode encontrar e comprar com facilidade um milhão de livros diferentes.

Não se vendia, ou pouco se vendia livros em catálogos. O espaço não era suficiente, limitavam-se aos tempos de chegada do catálogo e envio do pedido, tudo indo e voltando por envios postais. E mesmo nas lojas físicas não se podia ter livros em demasia, e os estoques chegavam a, no máximo, 300 mil exemplares. Em contrapartida, a Amazon é uma loja 24 horas, com resposta de compra instantânea, e iniciou suas atividades com, nada mais, nada menos, do que 1 milhão de exemplares. Com um logotipo simples com o nome da empresa, possui uma seta que leva de A a Z dando a entender que, em suas prateleiras virtuais, encontram-se produtos de A a Z.

Logo da Amazon

A empresa e seu fundador previam alcançar, em 2000, o respeitável número de um bilhão de dólares em vendas, mas isso aconteceu bem antes. A Amazon atingiu o faturamento de 1,6 bilhões de dólares já no ano de 1999, crescimento que superou em três vezes o do ano anterior. Hoje, a Amazon diversificou seus negócios, vende não só livros como CDs, DVDs, utensílios domésticos, produtos de beleza, eletrônicos, brinquedos e muito mais. Em 2014, foram mais de 5 bilhões de produtos vendidos, 270 milhões de clientese um faturamento de US$ 74,45 bilhões.

Interação e Redes Colaborativas

A Amazon não só foi uma das pioneiras no comércio eletrônico e uma revolução na venda de livros. Bezos é um gênio da matemática e foi capaz de compreender não só o comportamento dos consumidores, como conseguiu fazer os algoritmos jogarem a favor dele. Criou um espaço para os usuários darem suas próprias opiniões e avaliações sobre os livros lidos e comprados, o que foi importantíssimo, trazendo os consumidores novamente ao site e tornando-os construtores do mesmo.

Além do uso deste tipo de ferramenta social que, comprovadamente, favorece a venda, já que é sabido que a melhor maneira de se promover um produto/serviço é através do boca a boca, a quantidade de informações de um banco de dados digitalizado que se forma em uma loja virtual como a Amazon permite a criação de algoritmos capazes de identificar preferências e indicar e sugerir produtos que possivelmente irão agradar seus clientes.

Na Internet, as pessoas querem pagar por aquilo que é relevante, exclusivo e que economiza tempo. – Chris Anderson

Seja levando-se em conta o varejo tradicional ou os puramente virtuais, ter espaço ilimitado em suas prateleiras, fornecer informações em abundância sobre seus produtos (inclusive dos usuários) e fornecer ferramentas inteligentes de busca a fim de se encontrar o que se deseja com maior facilidade – que em conjunto constituem a visão original de Bezos e o princípio de usabilidade da Amazon – se mostraram sob todos os aspectos tão atraentes quanto ele supôs.

Kindle

Conforme já falei aqui neste blog, o Kindle foi lançado em resposta ao lançamento do Sony Reader, o primeiro leitor eletrônico voltado exclusivamente à leitura de livros, e que trouxe a inovadora tecnologia da tinta eletrônica. Mas, além de ser um novo suporte à leitura e um “concorrente” para o livro, o Kindle potencializa as características que marcaram a Amazon como grande inovadora e brilhante varejista virtual.

Quando a Amazon surgiu, sua principal característica, em comparação aos catálogos e livrarias físicas, era sua capacidade de trazer maior diversidade às prateleiras, com ofertas muito mais variadas do que seus concorrentes off-line. Mas, de qualquer forma, apesar de muitos acordos com fornecedores para envio de produtos diretamente dos estoques destes, a Amazon ainda tinha que lidar com o problema do estoque. Por mais que não fosse necessário estocar todos os seus produtos, é necessário estocar grande parte deles.

É nesse sentido que o Kindle traz a grande revolução ao mercado editorial, o que já havia acontecido com a música e com o cinema: a digitalização. Com os ebooks, os estoques tornam-se zero, pois todos os arquivos são armazenados em bits e bytes em servidores online. A oferta pode, então, ser ampliada ao limite do infinito, uma vez que o armazenamento físico deixa de existir, criando a possibilidade de ofertas de livros em quantidades jamais pensadas pelos comerciantes tradicionais.

Esse tipo de aposta da Amazon, pensando no macro, ao invés do micro, apostando numa gama maior de produtos e contando com a capacidade do cliente em escolher o que deseja, é uma característica nascida puramente das possibilidades advindas da internet e dos recentes avanços tecnológicos. E vira de cabeça para baixo a forma de se vender todos os tipos de mídia. Revirou a indústria da música, do cinema e, agora, pega pelo calcanhar a indústria editorial.

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