Adeus, China

18 de julho de 2012, por

Resumo

Título:

Adeus, China - O Último Bailarino de Mao (Mao's Last Dancer)

Autor:

Li Cunxin

Editora:

Fundamento

Páginas:

400

Publicação:

2007

ISBN:

9788576761808

Preço:

R$ 40,59

Avaliação:

Longa vida ao chefe Mao! Longa, longa vida!

Durante a Revolução Cultural Chinesa, a frase acima foi estampada, entre outros, em posteres, fábricas, universidades e escolas. Numa dessas escolas – em Qingdao – estudava um jovem chamado Li Cunxin (para ajudar – ou não -, pronuncia-se “Lee Schwin Sing”).

Li Cunxin nasceu em 1961 numa área rural perto da cidade de Qingdao. Filho de camponeses, viveu uma infância de extrema pobreza durante os anos da Revolução Cultural, mas teve a vida virada de cabeça para baixo quando, aos 11 anos de idade, foi escolhido para ingressar na Academia de Dança de Pequim.

São os detalhes da trajetória de Li que conhecemos em Adeus, China – O Último Bailarino de Mao. Não tenho a menor hesitação em dizer que Adeus, China foi um dos melhores livros que tive oportunidade de ler. É uma biografia belíssima, escrita de forma leve cativante, praticamente romanceada. Agrada até quem não gosta de biografias, não tenho dúvidas. Mas é, acima de tudo, uma lição de vida das mais cruéis.

“Mundo cruel” eu pensei, “em que crianças competiam com ratos por comida.”

A pobreza da China rural dos anos 70 e 80 não é única, e muito menos foi erradicada. Existe ainda hoje em muitos lugares, e não muito longe da cadeira onde você está sentado, lendo esse texto. Mas é extremamente incrível como, naquela China pobre e rural, os conceitos de honra e respeito à família eram fortes. Li teve outros seis irmãos, e dividiu com eles a carência de oportunidades e de comida.

Comíamos inhames secos, cozidos na água ou no vapor, dia após dia, mês após mês, ano após ano. Era o alimento mais detestado em minha família, mas havia outros na comuna que nem com isso contavam. Tínhamos mais sorte que a maioria. Tivemos mais sorte do que os 30 milhões que morreram de fome. Os inhames secos salvaram nossas vidas.

Li foi um privilegiado. Numa família onde o pai, um dos mais bem pagos da região, recebia 4,20 dólares por mês, foi escolhido numa seleção feita em toda a China para estudar balé na da Academia de Dança de Pequim, que tinha a madame Mao – esposa do tão amado chefe Mao – como diretora artística honorária.

Passaram sem me notar e já iam saindo, quando a professora Song, depois de certa hesitação, tocou no ombro de um dos senhores de Pequim e perguntou, apontando pra mim:
– Que tal aquele ali?
O representante de Pequim olhou em minha direção.
– Está certo. Ele pode vir também.

Mas é claro que não foi tão fácil assim para Li essa transição. Como dizer a um menino de 11 anos, um pobre camponês sem instrução e dependente da família que agora ele vive sobre regras rígidas e precisa estudar, de domingo a domingo, não só uma dança que ele considera chata, mas também conceitos e ideologias que ele mal entende? Não bastasse a distância e a culpa por ter tanto para se alimentar enquanto a família continuava na pobreza (o que não era tanto assim, mas muito mais do que os pais e irmãos tinham).

Mas o pior de todos os males Li ainda estava por descobrir. É surreal ler a história de Cunxin… Já cansamos de ver as atrocidades que governos são capazes de causar em nome de algum tipo de propósito. Mas é incrível conhecer a história por quem a vivenciou. Li era apenas um garoto e, assim como muitos, foi facilmente manipulado pelos ideais e histórias do Partido Comunista. Tinha o chefe Mao como um Deus e realmente acreditava que a China era o país mais próspero do mundo. Para um garoto que viveu cercado de tanta miséria, imagine como não devia parecer o Ocidente?

Mas Li consegue superar os obstáculos (não sem MUITA dedicação e trabalho) e tem a oportunidade de ver com seus próprios olhos a América tão mal falada em seu país natal. E esse choque cultural é um dos momentos mais incríveis do livro.

Em apenas duas horas, Bem gastou cerca de cinco mil dólares em presentes! Sessenta e cinco anos de salários do meu pai – uma vida inteira de trabalho estafante! Minha família viveria por meio século com a quantia que Ben gastara em um só dia. Era incompreensível. Eu estava chocado e triste. Como podia haver tal desigualdade no mundo?

Parece muito bonito falar de como a vida da maioria melhorou daquela época pra cá; não só na China, mas em todo o mundo. É verdade que melhorou, apesar de tanta gente que ainda passa por condições semelhantes, mas após ler Adeus, China, me pergunto o que perdemos no caminho; onde foram parar conceitos como respeito, honra, honestidade, família…

Quanto a Li Cunxin, não é novidade para ninguém que ele se torna um dos maiores bailarinos do mundo (o Google dirá isso facilmente a vocês), mas a história dele ainda se desenrola de forma dramática da chegada à América pra frente, e vou deixar essa parte para vocês lerem no livro. E vale a pena repetir: Adeus, China foi um dos melhores livros que tive oportunidade de ler – e reler.

Adeus, China foi adaptado para o cinema em um 2009. O Último Dançarino de Mao foi dirigido por Bruce Beresford e escrito por Jan Sardi. O filme tem uma carga dramática muito boa, mas não aconselho a quem ainda deseje ler o livro. Não chega nem perto…

Durante os onze anos da minha infância em Qingdao, convivi com a dura realidade de não ter comida para encher nossos estômagos, de ver a luta de meus pais, de assistir a gente morrendo de fome, de me sentir aprisionado no mesmo círculo vicioso de desesperança em que viveram meus antepassados. Tinha decidido sair daquele poço profundo e escuro. Não conseguia lembrar quantas vezes tinha desejado morrer para aliviar a carga financeira de meus pais. Teria dado a vida para ajudar a família, mas isso faria alguma diferença? Afinal, a quem pertence a vida?

Um Comentário

Deixe aqui a sua opinião!