O que aconteceu com o preço dos livros?

25 de maio de 2017, por

Confesso que estou assustado! Passei os últimos 4 anos afastado do mercado editorial e esse retorno tem sido um baque. Desde que encerrei as atividades da editora me vi distante de notícias do setor, lançamentos, dados de vendas e até mesmo das livrarias. Não que eu tenha deixado de visitá-las, mas a frequência diminuiu bastante, e andei mais voltado aos livros de negócios do que às obras de ficção e biográficas. A partir do momento em que decidi reativar o blog, voltei a dar atenção às notícias, passei a olhar novamente com mais calma as novidades nas prateleiras das livrarias e comparei os valores dos livros nas resenhas que eu fiz há alguns anos com os valores atuais. E a mudança foi drástica em dois quesitos: o preço dos livros parece ter dado um salto quântico e os dados de compra caíram bastante*. Ok, a economia brasileira foi pro buraco nesses últimos anos, mas esse gap que pude perceber nessa minha rápida avaliação foi uma paulada na cabeça — senão na do mercado editorial, na minha. E foi aí que comecei a me perguntar qual era a atual situação do mercado editorial.

Ilha de novidades da Saraiva não tem nenhum livro abaixo de R$30,00 e pelo menos 2 títulos acima dos R$100,00. Preço dos livros está salgado.

Ilha de novidades da Saraiva não tem nenhum livro abaixo de R$30,00 e pelo menos 2 títulos acima dos R$100,00

Como eu já disse aqui em cima, a economia brasileira foi uma catástrofe nos últimos anos e a inflação voltou a subir com força de 2014 pra cá, mas fiquei bastante chocado com o grande aumento que vi nos preços de capa dos livros. Dos que eu havia resenhado há tempos foram poucos que não tiveram aumentos na casa dos R$10,00. E nas prateleiras das livrarias foi-se o tempo em que a grande maioria rondava a casa dos R$30,00. O que vi foram MUITOS livros passando fácil dos R$40,00. Vi sim as editoras tentando inovar, com muito mais livros com edições de capa dura do que se via há poucos anos (e isso é bem legal), mas no geral a minha percepção foi de um aumento drástico do preço dos livros de todos os gêneros.

E esse negócio de percepção é um troço complicado, por que a minha nos últimos anos era de que estávamos lendo mais. Minha intenção com o Subtítulo lá em 2010 era ajudar, na medida do possível, a difundir, popularizar a literatura. E realmente acreditei que, junto com uma dezena (senão centenas) de outros blogs e com as editoras cada vez mais próxima dos leitores nas redes sociais, tivéssemos logrado algum sucesso. Ao longo dos anos cada vez vejo mais gente lendo no ônibus, metrô, etc. Participei de um movimento que ajudou a dar um boom na leitura de autores contemporâneos nacionais. A cada ano vejo as Bienais do Livro cada vez mais lotadas, sem contar as livrarias lotadas em datas comemorativas como dia das mães, natal, etc. Fiquei na dúvida sobre se a minha percepção tinha me enganado.

pessoas lendo no metrô

O metrô é de Londres, eu sei, só quis ilustrar a cena. rs

Comecei a me questionar se era, de fato, tudo culpa da economia, da inflação, ou da eterna afirmativa de que brasileiro lê pouco. Até que um artigo publicado no PublishNews me ajudou a clarear o cenário. O artigo fala sobre um estudo que analisou os últimos 10 anos do setor, tempo “em que houve queda no faturamento, e aumento de 20,88% no número de livros vendidos”. O que se auferiu foi que a tentativa de oferecer livros com preços mais baixos não resultou, necessariamente, num faturamento maior. Ou seja, tentou-se ganhar em escala vendendo a preços mais baixos, porém a estratégia não trouxe o aumento esperado nas receitas.

Mas eu realmente torço muito para que esse aumento que percebi nos preços de capa não seja simplesmente uma tentativa de aumentar o faturamento já que as vendas caíram. Ok, ok, eu sei que o faturamento é tudo para uma empresa e, óbvio, as editoras tem que sair do buraco de alguma forma. E acho que a opção por edições de luxo é muito acertada! Os amantes dos livros vão adorar, e comprar. Mas esse aumento drástico dos preços das edições comuns não deve fazer outra coisa senão diminuir ainda mais a quantidade de exemplares vendidos. Sei que a vida não é um conto de fadas, que a inflação e o dólar alto encareceram tudo, mas os nossos livros já são caros, queremos afastar ainda mais os leitores? Precisamos ter um mix mais variado de edições, para poder oferecer valores maiores e menores, do capa dura ao e-book passando pelo pocket bem editado.

É claro que também era de se esperar uma queda nas vendas nos últimos anos. Como já repeti algumas vezes, desde 2014 que estamos num buraco econômico complicado de sair e não poderia ser diferente para o mercado editorial. Fiz uma comparação aqui embaixo dos valores de venda e faturamento do setor de Obras Gerais vendidas para o Mercado, ou seja, as vendas do varejo, sem considerar as compras governamentais, e sim, as vendas tem caído desde então. E, claro, o faturamento também. Mas se a economia vai mal, nada melhor pra mim, que gosto de ler, do que livros mais em conta, certo? Claro que não estou falando de editoras fazendo caridade, mas precisamos encontrar um equilíbrio, inclusive no que diz respeito à superprodução e aos encalhes. Ah, mas é mais barato imprimir um caminhão de livros? Sim, é. Mas e quando não vendem, quanto influencia no bolso das editoras todo esse custo de armazenamento?

 SUBSETOR FATURAMENTO (VENDAS PARA O MERCADO) *
2012 2013 2014 2015 2016
Obras Gerais  R$ 974.491.885,56  R$ 1.055.800.242,91  R$ 1.103.704.361,74  R$ 1.076.053.793,87  R$ 1.023.569.104,47

 

SUBSETOR EXEMPLARES VENDIDOS PARA O MERCADO *
2012 2013 2014 2015 2016
Obras Gerais 108.951.867 121.678.722 115.072.869 109.104.528 97.096.535

Mas o mais importante de tudo, e que talvez ajude a responder ao questionamento título deste post: sinto MUITA falta de ações de fomento à leitura. Então, quando me pergunto “o que aconteceu com o preço dos livros”, só vejo uma saída: criar mais leitores, incentivar o hábito de leitura. Afinal, não importa o preço dos livros se não tem quem compre. Seja mais barato ou mais caro, vai perder feio na “competição” contra a pobreza, a fome, os jogos, a música, e todo o tipo de entretenimento. Bienais são ótimas? Sem dúvida, mas não podemos viver só disso. E existem sim ações ótimas, como o excelente “Projeto Mais Leitura“, onde livros novos custam de R$ 2,00 a R$ 7,00, ou como a ação de incentivo à leitura nos vagões de metrô, projetos realizados dentro de escolas, entre outros. Mas falta muito! Sem contar o quanto poderíamos fazer com os encalhes que só geram prejuízo.

No final das contas, o Brasil tem problemas demais para nos preocuparmos com o baixo índice de leitura ou o baixo índice de leitura é um dos responsáveis pelos problemas demais que temos no Brasil? A leitura precisa fazer parte da nossa rotina, independente do nosso saldo bancário. E por isso eu estou assustado, porque com os preços subindo e com pouco incentivo à criação de um país de leitores, fica difícil imaginar que um dia iremos reverter esses números.

* Fonte: SNEL (Produção e vendas do setor editorial brasileiro)

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