Em defesa da Literatura de Entretenimento

27 de junho de 2012, por

Nos últimos dias vi bastante coisa pipocar sobre literatura de entretenimento em textos na web. Esse não é um assunto novo – longe disso – mas está constantemente indo e vindo à pauta de discussões literárias. Mas acho que dessa vez o assunto volta no momento certo. O mercado editorial brasileiro vem crescendo como nunca, apostando muito alto em livros desse nicho e, principalmente, dando espaço para esse tipo de literatura feita no Brasil.

Mas ainda é pouco; importante, mas muito pouco. Num país como o Brasil, onde parece estar enraizado no povo o estigma de que a literatura é para poucos; onde criou-se tanta deferência em torno da leitura, que o hábito de ler, para quem não o tem, parece enfadonho e complicado, ela é importantíssima.

O Brasil tem hoje cerca de 192 milhões de habitantes (segundo estimativa de 2011) e, desses 192 milhões, apenas 50% são considerados leitores*. É muito pouco, e ainda menos do que em 2007, quando os leitores representavam 55% da população. Como se não bastasse, temos uma pequena parcela da população representado quase metade dos leitores. Seria interessante, caso nossa capacidade de formar leitores fosse maior. Explico: desses 50%, 49% está em idade escolar (cerca de 37% da população), enquanto os outros cerca de 63% da população representa 51% dos leitores.

Vendo esses números, me questiono sobre a fragilidade da escola em formar leitores. Mas, para mim, a escola só reflete o problema. Aquele mesmo problema falado lá em cima: a literatura complicada. Os intelectuais e a crítica torcem o nariz para a literatura de entretenimento e a população torce o nariz para os livros. O Luis Eduardo Matta, escreveu um texto em 2006 para o Digestivo Cultural que deixa muito clara essa questão de forma muito mais competente do que eu seria capaz aqui. Nas palavras do Matta:

Essa mentalidade limitada e um tanto esnobe ajudou, e muito, a gerar a grande aberração que é a situação precária da leitura no Brasil contemporâneo. Pois, se por um lado, temos intelectuais encastelados em suas inexpugnáveis torres douradas de pretensa sabedoria dialogando entre si, para diminutas platéias de iguais ou para o espelho, por outro temos um imenso contingente de pessoas carentes de leitura e conhecimento, que nunca foram devidamente introduzidas no universo lúdico dos livros e permanecem distantes deles, muitas vezes por se sentirem incapazes de praticar a leitura com todo esse cerimonial amplamente apregoado pelos formadores de opinião.

Quando eu digo que a escola apenas reflete o problema, quero dizer que ela também está “encastelada em suas inexpugnáveis torres douradas de pretensa sabedoria dialogando entre si”. Poucas são as que tentam atrair as crianças com livros que falem a linguagem delas, em formatos de aprendizado atrativos. E aí os primeiros contatos com o livro se dão de forma traumática, através de livros “difíceis de entender”, “chatos”… e os números lá em cima mostram o que vem depois.

A literatura pode sim ser despretensiosa, assim como o teatro e cinema. Nós não vamos ao teatro e ao cinema pensando no quanto vamos evoluir após absorver aquele conteúdo. Nós simplesmente absorvemos de forma natural e, caso haja algo que nos faça pensar, aquilo plantará uma semente. Com o livro funciona da mesma forma. Você se envolve com a história e absorve aquilo de forma natural. Se você não entende o que está escrito, meu conselho é fechar e partir pra outro. Com o tempo, e com mais bagagem, um dia você estará pronto para tentar lê-lo novamente se quiser. Mas não adianta forçar, tem que ser um processo evolutivo. E a literatura de entretenimento ajuda nesse caminho.

Digo com estudo de causa, pois sou leitor forjado em Harry Potter. Aquela mesma série que disseram que não formaria leitores. Formou muitos, tenho certeza. E hoje posso me arriscar a ler livros que eu considerava intocáveis (aqueles que me traumatizaram na escola) com a maior tranquilidade. Tudo por causa de uma história despretensiosa de um bruxinho. Muitos dirão que “não, Harry Potter tem muitas qualidades, fala sobre amizades, lealdade, etc…”. Sim tem inúmeras qualidades, mas pode ser lido somente como uma história despretensiosa sobre bruxos. E com o poder de trazer muita gente pro nosso lado…

Felipe Pena, jornalista e escritor, expõe na introdução da coletânea de contos Geração Subzero, de maneira bem dura e direta, sobre os problemas da literatura brasileira e da dificuldade de produzir e destacar essa literatura voltada para o público, para o entretenimento.

Para os doutores da Academia, entreter significa passar o tempo. É um termo pejorativo, aviltante, usado para diminuir uma obra. Mas não é o que ele significa para quem se envolve com um livro e não consegue largá-lo. Em literatura, entretenimento é sedução pela palavra escrita. É a capacidade de envolver o leitor, fazê-lo virar a página, emocioná-lo, transformá-lo. Precisamos de livros de ficção que sejam acessíveis a uma parcela maior da população. E isso não significa produzir narrativas pobres ou mal elaboradas. Escrever fácil é muito difícil.

É uma introdução de mestre, posso garantir, e dá uma baita chinelada no status quo da literatura brasileira. Mas, para mim, a grande questão é: por que não temos críticos desse tipo de literatura? Afinal, o livro trata de autores “congelados pela crítica”. Por que damos valor a uma crítica que não dá valor à nossa literatura? Como muito bem disse Pedro Almeida, publisher da Lua de Papel, precisamos de novos críticos literários.

Vejo o diretor comercial da Saraiva dizer que a literatura juvenil representa cerca de 20% das vendas da rede; vejo o editor da Sextante falar que desistiu de anunciar nos suplementos literários pois não falam com o público dele; e vejo os blogs arrastando multidões de leitores aficionados por esse tipo de literatura. E me pergunto: o que falta para termos suplementos ou mídias (profissionais) que tratem da literatura de entretenimento?

Se há público, se há investimento, e se há autores, o que falta? Para mim, não falta nada e, como jornalista e fanático por livros, já pesquisei, já tentei, e continuo tentando. Já disse e afirmo que agora é a hora. E estou pouco me lixando para o que dizem os eruditos, quero mais é ser seduzido pela palavra escrita.

* Dados da pesquisa Retratos da Leitura no Brasil (2012).

11 Comentários

  • Verônica Vidal 27 de junho de 2012 às 15:52

    Ah, como são verdadeiras as suas palavras! Sou leitora do tipo viciada , daquelas que ficam doidinhas quando um livro termina e dois dias depois ficam a pensar: “E agora, o que eu leio?”, como se estivesse em frente à geladeira à procura de uma coisa gostosa para comer. E tudo começou com… sei lá. “A Ilha Perdida”? Os livros do Sidney Sheldon na adolescência? Talvez, mas a verdade é que a massinha que me moldou não foi o Monteiro Lobato como seria bonito dizer. Foi a tal literatura de entretenimento que me despertou a paixão. Hoje amo Kafka e Maquiavel, do mesmo jeito que adoro o Garcia Marquez, mas estou morrendo de amores pelo Valter Hugo Mãe. Ando a meio do Bufo e Spallanzani e leio até bula de remédio. Bjim.

    • Lorran Feital 27 de junho de 2012 às 15:54

      Exatamente, Verônica!
      É engraçado como a mera citação dos nomes de Monteiro Lobato, José de Alencar, Lima Barreto, entre outros, é capaz de gerar arrepios de ojeriza em algumas pessoas.
      Não prego a literatura de entretenimento como salvação de todos os males, porque não é. Mas é preciso acabar com esse preconceito idiota, afinal é literatura também. E, por mais leve e despretensiosa que seja, gerará frutos.
      E criará, com certeza, um leitor sem medo de Monteiro Lobato, José de Alencar, Lima Barreto, Kafka, Maquiavel, Dostoiévski…

  • Juliana Marton 28 de junho de 2012 às 15:56

    Falou e disse, Lorran! Concordo plenamente com você. Detesto quando as pessoas começam a criticar os tais “hábitos de leitura” dos adolescentes e jovens-adultos… Poxa! Deixem-nos ler o que quiserem e depois (se assim julgarem certo), que partam para os intelectualoides.

    Até logo! o/

    • Lorran Feital 28 de junho de 2012 às 15:58

      Isso aí.
      Tá na hora de acabar com essa bobeira. Lá fora autores dessa literatura são reverenciados e vendem milhões de livros. Aqui são tratados como segunda categoria. Será que estamos mesmo no caminho certo?
      Sempre li de tudo. Só não gosto muito de bula de remédio. Acho que cada um tem que buscar sua identidade da maneira que quiser.
      Conforme vamos descobrindo e aprimorando nosso gosto, outras leituras vão se revelando interessantes.

  • Victor Schlude 28 de junho de 2012 às 15:59

    Ótimo texto, Lorran, gostei muito do tópico abordado e principalmente do modo como você o abordou. Eu me considero um privilegiado. Minha mãe sempre leu histórias para mim, quando criança, e já na idade de ler sozinho, sempre ganhei livros e participava de um programa muito interessante na escola: cada aluno da turma pagava uma quantia fixa e, com esse dinheiro, o colégio comprava um grande acervo de livros. Daí, a cada duas semanas, se não me engano, todos escolhiam um título, liam e faziam um trabalhinho sobre o mesmo. Não é um projeto caro, creio que deveria ser implementado em todas as escolas. Você passa a dialogar melhor com os livros, nunca temi as obras obrigatórias por isso, creio eu. Antes de criticar os leitores, as pessoas devem se preocupar mais em formar leitores e apaixonados pela literatura.

    Abraços,

    Victor

    • Lorran Feital 28 de junho de 2012 às 16:00

      Muito interessante o método, Victor.
      Pensei até em entrar nesse assunto, mas deixei para outro post. Não adianta querer tentar ensinar literatura da forma como se faz hoje. Não há troca de experiências; o aluno lê (quando lê) apenas para responder um questionário que faz ele entender menos ainda o que leu.
      Enfim…
      Obrigado pelo comentário.

  • Re S Ramos 28 de junho de 2012 às 16:01

    Ler é bom demais, não importa qual livro. Sou eclética e gosto de tudo. Neste mês, por exemplo, aproveitei uma promoção na Saraiva e comprei de presente pra mim 3 livros: A Última Carta de Amor, Orgulho e Preconceito e a coleção O Caminho dos Sertões de João Guimarães Rosa. Só porque amo chick-lit e afins não posso gostar de literatura clássica, e vice-versa? Nada a ver!
    P.S.: excelente artigo!

    • Lorran Feital 28 de junho de 2012 às 16:03

      Com certeza, Renata. Nada a ver.
      Tem espaço pra todo mundo.
      Como você disse no seu comentário no Facebook, “ler qualquer coisa é muito mais eficiente para nosso aprendizado do que somente assistir”.

  • Cris Aragão 28 de junho de 2012 às 16:02

    Eu leio de tudo um pouco, ou muito, dependendo da minha disponibilidade de tempo, e sei que livros de banca, gibis e outros tipos de leituras menos cotados são uma excelente introdução ao hábito da leitura, quando adolescente fui por muito tempo viciada em livros de bolso com histórias de detetive e espionagem e esse tipo de leitura criou em mim o hábito de ler constantemente, eu me lembro que comprava e trocava esses livrinhos numa banca na feira onde ia com minha mãe, felizmente ela nunca me censurou pelas leituras sem grande conteúdo e um tanto quanto inadequadas para a minha faixa etária, eu acho que graças a isso a leitura se tornou um hábito diário na minha vida.

    • Lorran Feital 29 de junho de 2012 às 16:04

      Minha experiência é bem parecida, Cris.
      Felizmente sempre fui incentivado a ler de tudo. Com o tempo, fui formando meu gosto e experimentando novas coisas.
      Leitura se faz com hábito. E sem qualquer preconceito.

  • Marco Simas 13 de julho de 2012 às 16:05

    É essencial disseminar este pensamento. É preciso que os jornais, mais populares, tenham a literatura como seção e o “poder de formar opinião” não se esgote nos cadernos literários dos grandes jornais, inacessíveis, enfadonhos e comprometidos. É da maior importância que aconteçam festas de livros, como a do Morro da Conceição (em outubro próximo) e não fiquem restritas a uma pequena casta endinheirada. Temos muito que fazer e é assim que começa. Texto fundamental Lorran.
    Abraço!
    Marco Simas

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